UMA NOVA REFLEXÃO: A mulher e a moda.


 
 Da moda diz Georg Simmel: “Ela é imitação de um modelo dado e satisfaz assim a necessidade de apoio social, conduz o indivíduo ao trilho que todos percorrem, fornece um universal, que faz do comportamento de cada indivíduo um simples exemplo. E satisfaz igualmente a necessidade de distinção, a tendência para a diferenciação, para mudar e se separar. E este último aspecto consegue-o, por um lado, pela mudança dos conteúdos, que marca individualmente a moda de hoje em face da de ontem e da de amanhã, consegue-o ainda de modo mais enérgico, já que as modas são sempre modas de classe, porque as modas da classe superior se distinguem das da inferior e são abandonadas no instante em que esta última delas se começa a apropriar.

 Por isso, a moda nada mais é do que uma forma particular entre muitas formas de vida, graças à qual, a tendência para a igualização social se une à tendência para a diferença e a diversidade individuais num agir unitário.” (Filosofia da moda). O filósofo não a analisa, portanto, nas circunstâncias da sua fenomenalidade empírica e descritiva (exceto quando se torna necessário), nos processos sociais da sua produção, nos circuitos da sua comercialização. Encara-a antes na sua raiz antropológica, nos seus pressupostos vitais, na tessitura móvel e sistêmica da existência humana que é feita de conflitos, de tensões e interações, como fator nuclear de socialização e de individualização.

 A moda expressa, da forma mais visível e concreta, a realidade essencialmente dialética e dinâmica da sociedade, feita de interconexões e liames, mas também de inevitáveis confrontos entre os indivíduos, entre as múltiplas e diferentes formações sociais, entre os indivíduos e os grupos ou as classe.

 Com estes pressupostos, entender-se-á melhor o que G. Simmel aqui refere sobre a relação complexa entre a mulher e a moda. Não se esqueça que o escrito surge na altura dos primeiros alvores do feminismo e que o filósofo alemão dedicou à situação e ao ser da mulher páginas deveras interessantes.

 Se a moda expressa e acentua ao mesmo tempo o impulso para a igualização e para a individualização, o estímulo da imitação e o da distinção, isso explica talvez porque é que as mulheres aderem em geral à moda com particular exuberância. Com efeito, a debilidade da posição social a que as mulheres estiveram condenadas durante a maior parte da história gera nelas uma estreita relação com tudo o que é “costume”, com aquilo “que fica bem”, com a forma de vida geralmente aceite e reconhecida. Pois o débil evita a individualização, o repousar sobre si com as suas responsabilidades e com a necessidade de se defender apenas mediante as suas próprias forças. Só a forma típica de vida lhe garante protecção e estorva o enérgico na expansão das suas forças excepcionais.

 Mas, neste solo firme do costume, da norma, do nível geral, as mulheres aspiram fortemente à relativa individualização e à caracterização da personalidade individual, que ainda lhes são possíveis. A moda proporciona-lhes justamente esta combinação da forma mais venturosa: por um lado, um recinto de imitação geral, um nadar tranquilamente nos amplos canais da sociedade, um alívio do indivíduo em face da responsabilidade pelo seu gosto e pelo seu fazer – por outro, no entanto, uma caracterização, um realce, um adorno individual da personalidade.

 Aparentemente, para cada classe de homens e, porventura, para cada indivíduo existe uma determinada relação quantitativa entre os impulsos de individualização e de imersão na coletividade; por isso, se a fruição de um deles for impedida numa determinada área da vida, ele irá à busca de outra na qual obtenha a medida de que necessita. Segundo parece, a moda seria também, por assim dizer, a válvula donde irrompe a necessidade de as mulheres se distinguirem e realçarem a sua individualidade segundo uma maior ou menor medida, quando tal satisfação lhes é recusada nas outras áreas. Nos séculos XIV e XV a Alemanha apresenta uma evolução extraordinariamente intensa da individualidade.

 As organizações coletivistas da Idade Média tinham sido, em grande parte, desmembradas em virtude da liberdade da personalidade individual. Mas, no seio deste desenvolvimento individualista, as mulheres não encontraram ainda lugar algum, foi-lhes ainda recusada a liberdade de movimento e desenvolvimento pessoais. Buscaram então uma compensação através das mais extravagantes e hipertróficas modas indumentárias. Em contrapartida, vemos que, na Itália, a mesma época garante às mulheres o espaço para o desenvolvimento individual.

 As mulheres do Renascimento tinham muitas possibilidades de formação cultural, de ação exterior, de diferenciação pessoal como, durante séculos, nunca mais lhes foram concedidas; a educação e a liberdade de movimentos eram quase idênticas para ambos os sexos, sobretudo nas classes superiores da sociedade. Ora bem, dos lados da Itália nada se conta acerca de particulares extravagâncias da moda feminina desta época. A necessidade de, neste campo, se comportar com um acento individual e de se obter uma espécie de distinção não emerge, porque o impulso que aqui se exterioriza encontrou a sua cabal satisfação noutras áreas.

 Em geral, a história das mulheres mostra na sua vida exterior e interior, no indivíduo ou na coletividade, uma tão grande uniformidade, nivelamento e homogeneidade que elas, pelo menos na esfera da moda, esfera da mudança pura e simples, precisam de uma participação mais viva para acrescentar um estímulo a si e à sua vida – tanto para a emoção própria como para os outros.

 Tal como entre individualização e impulso coletivista, também entre homogeneidade e mudança dos conteúdos da vida existe uma determinada proporção das necessidades, a qual é inserida e repelida em diferentes áreas, e procura compensar a recusa numa mediante a forçada satisfação noutra.

 Em suma, poderia dizer-se que a mulher, comparada como o homem, é o ser mais fiel; mas a fidelidade, que, segundo a vertente anímica, expressa a homogeneidade e a unidade do ser, exige ainda, justamente por causa da oscilação das tendências vitais, uma mais intensa variação nas esferas que se deixaram de lado. Ao invés, o homem, mais infiel por natureza, costuma, de modo típico, não respeitar o compromisso da relação sentimental uma vez encetada, com a mesma incondicionalidade e concentração dos interesses vitais nela fixados; por conseguinte, precisará menos dessa forma exterior da mudança. Sim, a rejeição das variações nas esferas exteriores e a indiferença perante as modas na aparência externa são especificamente masculinas – não porque ele seja o ser de maior unidade, mas porque é, no fundo, o mais multiforme e, por isso, pode prescindir dessas modificações meramente exteriores. Por isso, a mulher emancipada da atualidade, que procura acercar-se da índole masculina, da sua diferenciação, da sua personalidade e mobilidade, acentua também justamente a sua indiferença perante a moda.

 A moda constitui também para as mulheres, em certo sentido, um substituto da posição no seio de uma classe profissional. O homem, que mergulha em semelhante grupo, entrou assim num círculo de relativo nivelamento; dentro desse estado é igual a muitos outros; sob muitos aspectos, é apenas um exemplar para o conceito de tal estado ou profissão.

 Em contrapartida, e como se aqui se tratasse de uma compensação, ele fica também ornado com todo o significado, com a força material e social desse estado; à sua significação individual acrescenta-se a da sua pertença à classe que, muitas vezes, pode cobrir as deficiências e as insuficiências da existência puramente pessoal.

 A moda efetua a mesmíssima coisa em conteúdos de todo diferentes; também ela suplementa a insignificância da pessoa, a sua incapacidade de, só por si mesma, individualizar a existência, através da incorporação num círculo caracterizado justamente pela moda, que por ela sobressai e de algum modo se coaduna para a consciência pública. Também aqui a personalidade enquanto tal fica, sem dúvida, inserida num esquema geral; mas, sob o aspecto social, este esquema tem um matiz individual e, portanto, graças ao giro social, substitui justamente o que está interdito à personalidade alcançar de um modo puramente individual.

 Que a [mulher] semi-mundana seja amiúde quem inicia a nova moda deve-se à sua forma de vida peculiarmente desenraizada; a existência de pária que a sociedade lhe destina suscita nela, declarado ou latente, uma aversão contra tudo o que já está legalizado, firmemente estabelecido, uma aversão que encontra a sua expressão ainda relativamente mais ingênua no empenho em formas de aparição sempre novas; na contínua aspiração a modas novas e até então inauditas, na inconsideração com que se agarra apaixonadamente a mais oposta à usual habita uma forma estética da pulsão destruidora que se afigura própria de todas as existências párias, enquanto ainda não estão de todo escravizadas.

* Estes textos, embora publicado em separado, aparecera já como uma secção do denso ensaio de Georg Simmel, Philosophie der Mode (1905), publicado agora em português, sob o título de Filosofia da moda e outros escritos, pela editora Texto & Grafia, Lisboa, 2008.
- Para quem o desejar, as obras de Georg Simmel, na sua quase totalidade, encontram-se disponíveis em alemão no eletro-sítio do Instituto Sociológico da Universidade de Zurique:
http://socio.ch/sim/www.lusosofia.net



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