O "Espírito do Tempo"

O século XX trouxe profundas mudanças na forma de produção das mercadorias. Os produtos das “artes aplicadas” (interiores, objetos, jóias, roupas) refletem um “espírito do tempo”, definido em função de uma mentalidade, de uma visão de mundo e de um modo de vida dominantes, de um comportamento social.

O conceito de “espírito de tempo” origina-se do alemão Zeitgeist e atualmente a expressão adquire dois sentidos:

• No uso coloquial utilizado pela imprensa expressa o contemporâneo o que é considerado “moderno”.

• No uso culto, dentro das ciências sociais identifica o clima geral intelectual, moral e cultural, predominante em uma determinada época.

As diversas manifestações da moda e o grau de desenvolvimento tecnológico de uma época são fatores decisivos para o desenho dos traços e dos contornos que definem o “espírito” de um tempo.

Numa retrospectiva, identificamos traços comuns em três esfera: na arquitetura (especialmente a decoração de interiores), no design de objetos e na roupa. As influências psicológicas que guiam a moda devem também afetar os estilos de construção e decoração, o “espírito do tempo” se manifesta por intermédio da moda.

O trimônio casa-objeto-roupa converte-se na evidência formal mais óbvia, quando se procura caracterizar, de modo retrospectivo, o modo de vida de uma sociedade em dado período histórico, uma vez que são facilmente identificáveis os traços estéticos comuns a essas três esferas.

A indústria da moda se tornou ao longo dos anos 1990, o principal pólo emissor de tendências estéticas para outros setores industriais, que compreenderam a sua eficácia para a aceleração do consumo. Dois fatores contribuem para essa realidade: o peso do marketing e a globalização propiciando a adoção de um estilo de vida altamente padronizado.

Entre a infinidade de objetos produzidos pelo século XX, um deles assumiu papel de destaque, seja pelas mudanças físicas que propiciou, seja pela importância central de sua cadeia produtiva, no quadro do capitalismo industrial: o automóvel.

Compondo com o trimônio casa-objeto-roupa, o automóvel tem sido o quarto elemento na definição de um “estilo de década” à partir de 1920, década em que o Ford T preto repercute a modernidade no design e na moda por Chanel, com seus tailleurs em jérsei e seu “pretinho” associando-se na época como o “Ford de Chanel”. A indústria da moda toma a dianteira em termo de definir direções que vão orientar estratégias de marketing.

Além das cores, o caso das formas também é notável, nos anos 1990, desenhos arredondados eram predominantes entre os novos carros populares brasileiros: os modelos Pálio da Fiat, o Corsa da Chevrolet e o Fiesta da Ford, todos com grandes faróis lembrando olhos de insetos, remetendo aos óculos “olhos-de-mosca” disseminados pelo estilo da cultura tecno no ano 2000. A vedete do salão do automóvel de São Paulo foi a perua PT Cruiser lançada pela Chrysler, inspirado nos anos 1930, 1940 e a marca de moda italiana Prada escolheu a década de 1940 para ser revisitada por suas linhas de prêt-à-porter e acessórios, confirmando o ar retro do estilo do começo do terceiro milênio.

Tendências de consumo criadas a partir de diversos pólos, como a indústria automobilística, o sistema do design e o da moda, dialogam entre si e reforçam-se mutuamente. A organização dos salões franceses de moda e decoração lançam a operação “Paris, capital da criação” em 2003, concentrando nas mesmas datas, todos os principais salões profissionais desses setores, acentuando suas influências recíprocas e o poder de prescrição internacional das próprias empresas francesas.

Trabalhar com tendências e fazer previsões pode ser valorizar pontos de vista específicos para projetá-los no futuro. A empresa moderna suplanta as diferenças da concorrência para agir em convergência com outros setores industriais, projetando e construindo as próximas etapas do consumo, por meio de propostas (tendências) comuns e coordenadas. Uma estratégia de convencimento para o novo consumidor, mais crítico, independente, exigente e mais assediado, com maior possibilidade de escolha.

Entre as causas que favorecem a moda na formação do “espírito do tempo” é a prevalência do corpo na cultura contemporânea à partir dos anos 1980. Na criação de moda, em design ou em arquitetura, o corpo e suas exigências são tomados de forma idealizada e não como ponto de partida para um projeto.

Nessa busca pelo funcional, prático, simples e confortável, a indústria têxtil deu passos definitivos. Nada está mais perto do corpo do que a roupa, nenhum outro material adapta-se tão bem a ele quanto o tecido. A pesquisa e o desenvolvimento de materiais têxteis resultaram em novas misturas de fibras, em composições que geram aspectos inusitados e que extraem o melhor de matérias-primas naturais, artificiais e sintéticas.

A conscientização do indivíduo em relação ao seu próprio corpo foi fundamental para essa notável simplificação da moda ao longo do último século.

O corpo ocupa uma tal centralidade na vida e no imaginário contemporâneos, que houve uma reversão da relação entre moda e corpo: antes, a roupa moldava as formas que se desejavam obter; agora, é preciso “obter-se um corpo”, cujas formas oscilam ao sabor das modas, e vesti-lo em consonância. Para corpos perfeitos, menos roupa e mais exibição da forma física.

Os elementos da década de 1980 passaram a ser sistematicamente relidos: o disco de vinil, a logomania, as cores flúor, os ombros quadrados, o comprimento míni, o brinquedo Lego, o design da marca italiana Memphis, o The Cure e as outras bandas do período e a mania pelo jeans (em baixa nos anos 1990).

Anos 1990: a abertura de mercado brasileiro, a chegada de lojas, marcas e produtos internacionais ao País, com as facilidades para importação, o aumento de viagens ao exterior, tudo isso, ao mesmo tempo em que a moda e o design viviam o seu grande boom, acabou, de modo benéfico, induzindo marcas, estilistas, criadores e designers nacionais a se repensarem rapidamente. Afinal, o concorrente deixava de estar do outro lado do mundo, para vir situar-se exatamente do outro lado da rua.

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