IDADE CONTEMPORÂNEA (Séc. XX): 1980 / 1989


A Explosão da Moda Brasileira

 Os anos 80 do século XX nos trouxeram uma verdadeira profusão de influências e contrastes, uma característica antagônica que ainda hoje é uma das referências da moda contemporânea. Justos X amplos, cores sóbrias X cores vivas, simples X exagerado, moda em uma pluralidade de opções.

O conceito de “tribos de moda”, apropriando-se o termo e a idéia das áreas da antropologia e da sociologia, foi uma característica marcante desse período. O termo “fidelidade ao seu estilo” tornou-se condição indispensável de pertencimento a um grupo específico.

Os punks continuaram com sua ideologia e visuais próprios, surgiram os góticos, que no Brasil eram denominados “darks” (escuro, em inglês) e o medo de uma guerra nuclear e do fim do mundo fez com que os adeptos dessa tribo se manifestassem visualmente em preto total nas suas roupas.

Os criadores japoneses influenciaram a moda com suas propostas de intelectualidade através da limpeza visual. Trouxeram à moda a filosofia zen, que nesse setor, assim como na música recebeu o nome de minimalismo.

A cor preta nessa década de 80 foi a grande identidade da moda, introduzida pelos punks e absorvida em outras manifestações como os góticos, os minimalistas, o caráter de que o preto emagrece as pessoas e também pela praticidade de não aparentar sujeira de fuligem, típica dos grandes centros urbanos fizeram dela a cor-símbolo dos anos 80.

Paradoxalmente, teve na moda o outro lado, o culto ao corpo se fez presente e os que aderiram a esse novo modo de vida privilegiavam um alto astral exibindo roupas justas e normalmente coloridas.

Nessa mesma década surgiu também um reflexo na moda vindo do mercado financeiro, a moda dos “yuppies” (Young Urban Profissional Persons, ou, jovens profissionais urbanos), muito bem posicionados financeiramente e com uma identidade particular ao se vestirem de maneira correta, privilegiando o que era chique e sofisticado naquele momento. Roupas de linho ou crepe passaram a ser as preferidas, deixando claro em seus visuais uma excessiva preocupação de gastos em roupas e acessórios para refletir a boa condição econômica. O ícone dos yuppies veio da Itália, Giorgio Armani se tornou sinônimo de elegância e refinamento.

Todas essas tribos eram compostas por ambos os sexos e as características visuais pertenciam a todos.

Os anos 80 tiveram também seus avanços tecnológicos e modernidades. O verdadeiramente novo veio de fato da área têxtil, especialmente com a invenção da microfibra, fina e resistente, dava ao fio certas propriedades que, ao serem elaborados os tecidos, esses eram leves e resistentes, além de traduzirem em si a característica de não amarrotarem e secarem num tempo muito reduzido comparado aos outros.

Também não se pode esquecer do início da informatização para o setor da moda. Computadores com programas específicos de modelagem, estamparia e outros recursos, acelerando a produção e dinamizando possibilidades no trabalho de moda.

A partir de 1980, as mudanças da moda aceleraram-se e a velocidade de produção de novas tendências era proporcional à sua difusão. Na década da pós-modernidade podemos analisar o seguinte esquema:

1. A moda institucional:

• O prêt-à-porter, criadores e marcas tinham papéis principais no segmento.

• A alta-costura enfraquecida comercialmente, passou a ser um laboratório e começaram ser negociadas e revitalizadas, iniciando com a contratação de Karl Lagerfeld como diretor criativo da marca Chanel em 1983.

• A indústria fabricante de corantes, fibras, fios e tecidos.

• As capitais da moda: Tóquio e Nova York disputando espaço, Paris a capital do luxo, Milão do chique comercial e Londres da moda jovem e criativa.

• Os satélites da moda: salões profissionais, birôs de estilo e mídia.

• O varejo, desde os grandes magazines até o surgimento de novos conceitos de lojas e butiques.

2. As subculturas jovens e os movimentos de rua.

3. A elite social produtora de novas modas, que passa a ser identificada com artistas nas páginas de revistas dos anos 1980 e 1990: a “Era das Celebridades”.

4. O indivíduo, que passou a ter maior liberdade na moda e começou a personalizá-la.

Trata-se da primeira geração de “escolas de moda”, no final dos anos 1980, com a instalação de três cursos superiores em São Paulo, oferecendo diplomas de bacharel.

A explosão da moda brasileira, contextualizada, abre caminho para um outro boom, o dos cursos superiores de moda, no mesmo período.

Na França, foi nos anos 1970 e 1980, que a moda alcançou plena legitimidade acadêmica. No Brasil, houve um precedente notável, com a defesa da tese de mestrado O espírito das roupas, de Gilda de Mello Souza, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que nos anos 1980 foi publicada, uma espécie de marco inicial dos estudos sobre a moda, produzidos pela academia brasileira.

Surgiu o estilista-criador (Jean-Paul Gaultier, Thierry Mugler, Claude Montana, entre outros), que atingiu a maturidade nos anos 1980, relendo as tendências dentro de estilos particulares, fundados em vocabulários de moda muito pessoais.

Nos anos 80 a indústria já não precisava ir até o mercado para orientar suas tendências: é o público, cada vez mais ativo e exigente, que deseja criar sua própria maneira de fazer moda.
 
A moda ganha status no mundo; a aparência agora importa e muito. Começa-se a falar nas fashion victims, homens e mulheres que seguem cegamente a moda. Os 80 vêem mulheres que descobrem seus poderes e os poderes de seu corpo. Uma mulher decidida, executiva, determinada e forte (em todos os sentidos) é a imagem ideal, dentro da ideologia yuppie (de young urban professionals, “jovens profissionais urbanos”, bem-sucedidos, com muito dinheiro para gastar).

 As armas do consistente ataque feminino são, portanto, ombreiras, tailleurs (pense no italiano Giorgio Armani, que desestrutura a silhueta), maquiagem e aeróbica. O culto ao corpo vive seu auge, com a ginástica e sua estética celebradas na moda e no dia-a-dia.

 Ao mesmo tempo, a multiplicidade das tribos urbanas alcança algo nunca visto. Coexistem punks, góticos, skinheads, new wavers, rappers (do hip-hop americano). A música influencia fortemente a moda.

 No Japão, eclode na temporada de verão 1983 a revolução de Rei Kawakubo (estilista da Comme des Garçons) e de Yohji Yamamoto. Intelectualizados e conceituais ao extremo, os dois lançam o pauperismo, que desestrutura radicalmente a silhueta, valendo-se de materiais que lembram roupas de mendigos de rua, propondo uma reviravolta no vestir que permanecerá influente até hoje. Ambos vêm apoiados pela pesquisa têxtil, nessa década em que a tecnologia do tecido contribui ainda mais para a evolução da moda.

 É só no fim da década que aparecem as supermodels, evolução do conceito de top model, que, como disse Linda Evangelista numa frase famosa, não saem da cama por menos de US$ 10 mil. Além de Campbell, Cindy Crawford e Claudia Schiffer personificam as mulheres mais glamourosas, desejadas e invejadas do mundo e ocupam no imaginário da mídia e do público um lugar antes reservado às estrelas de Hollywood.

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