PESQUISA DE MODA: a conclusão.

 

 A pesquisa desenvolvida para a publicação de um “Caderno de Inspirações” tem como base principal a consulta em periódicos, web sites, livros, material técnico em monitoramento de eventos (específicos de Moda ou representativos quanto a novos comportamentos sociais). Contudo, o que se observa é que uma grande dificuldade em reunir e, principalmente, analisar tantos dados em prazos satisfatórios à demanda apresentada pela Instituição que a desenvolve.

 Outro ponto crítico é que o conhecimento adquirido durante o período de levantamento de dados por cada pesquisador acabava sendo parcialmente perdido na segunda fase do trabalho (de análise e interpretação das informações). Pois, é difícil apresentar argumentos de defesa dos itens considerados relevantes diante da quantidade e diversidade do material levantado.

 A segunda etapa do trabalho consiste exatamente, em redistribuir e agrupar por afinidades estas informações a partir de critérios estabelecidos, gerando grupos temáticos. Estes grupos ainda apresentam um volume considerável de dados o que faz com que a equipe descarte os dados que não passam por uma análise prévia, ou mesmo, que parecem não serem relevantes, apesar de previamente selecionados.

 Todavia, quando alguns destes dados descartados apresentam-se primordiais após o avanço das etapas de trabalho e com o passar do tempo, ou seja: quando o trabalho já se aproximava das etapas finais. Nesse momento, as possibilidades de alteração do formato proposto do trabalho são mínimas, pois o produto (Caderno de Inspirações) pode já se encontrar em desenvolvimento por terceiros ou em acabamento final.

 Diante destes problemas operacionais, adota-se o modelo de mapas conceituais para a execução da atividade de pesquisa em uma tentativa de minimizar erros e ganhar corpo qualitativo no conteúdo das informações. Entretanto, se a equipe mostrar-se resistente ao uso da nova ferramenta, considerando-a inadequada ao trabalho, conclui-se que este comportamento pode ser provocado, principalmente (não considerando questões pessoais), pelo estilo gestor da Instituição que, informalmente, normaliza padrões de comportamento. E isto acaba por desencorajar novas atitudes comportamentais dos indivíduos contribuindo para uma postura de resistência ao novo em diversas esferas da corporação.

 Este estudo busca evidenciar uma característica que é comum há muitas empresas e, que, em instituições de ensino e pesquisa, como o caso analisado aqui, podem gerar barreiras que comprometem a execução de projetos. A referida instituição passava por reformulações nas análises de seus recursos humanos e de sua postura diante  deles, pretendendo, a médio e longo prazo, alcançar um perfil "empreendedor" na organização. Segundo Dolabela (1999), um "empreendedor" é o sujeito capaz de identificar um objeto de interesse, de entendê-lo, de detectar oportunidades, focar de modo diferente suas ações, imaginar e definir um   contexto e, sobretudo, planejar.

 Segundo Bruno e Felipecki (BRUNO, F. S. E FILIPECKI, A. T. P. Identificação de barreiras organizacionais ao desenvolvimento de competências intra-empreendedoras, In: Rio de Janeiro: Revista Inteligência Empresarial, VoI. 2, p. 24 a 37 2005), "quanto melhor a imaginação de uma pessoa, mais efetivo será o plano que poderá produzir ". Levando-se em consideração que imaginação está diretamente associada ao ato criativo e, que, o ato criativo é base para o desenvolvimento de novos produtos e processos no design, concluímos que planejar é uma ação criativa. Isto significa dizer que desenvolver projetos em design seja qual for a área (moda, gráfico, web...), é uma ação que envolve simultaneamente abstração e imaginação com análise e experimentação. E, foi por este viés que o uso dos mapas mentais parece adequado, além do mais, os mapas são conhecidos como uma "ferramenta analítica", logo contribuem ao principal problema da equipe: a análise de um grande volume de informações.

 Outro ponto relevante para compreensão da importância do experimento de novos métodos de análise e interpretação de tendências para o campo da Moda, é o fato de que "hoje a entendemos (a moda) como cultura" e "o grande movente dos estudos, em todos os níveis, é o trabalho com a interdisciplinaridade", a mobilidade e a noção de rede. Pois atualmente, criar produtos em moda não é apenas estudar formas ou ponderar usabilidades, mas sim traduzir o contemporâneo e novas configurações sociais em objetos consumíveis, e desejáveis. E, finalmente, a palavra tendência precisa deixar de ser vista como um sinônimo de "adivinhação" para tornar-se um mecanismo de estudo para a formação de cenários prospectivos, já que, é importante para todo o campo do design.

 
 Seguros da possibilidade de êxito com a ferramenta, opta-se por uma nova abordagem junto às equipes, dividindo segundo suas especialidades e assim, as tarefas relativas ao material gráfico podem ser distribuídas. A partir de então, o mapa conceitual é aplicado com as pessoas que ficam responsáveis pelo alinhamento conceitual da pesquisa.

 Em resumo, a estrutura de trabalho pode ser modelada conforme abaixo:
  • todo o grupo pesquisa informações gerais.
  • cada pesquisador identifica o que é relevante dentro das informações gerais que foram encaminhadas para o grupo de alinhamento conceitual.
  • o grupo de alinhamento conceitual pode ser constituído de profissionais diferentes (socióloga, designer, psicóloga, ....).

 Após a leitura do material recebido, cada integrante do grupo de alinhamento conceitual inicia a execução de um primeiro mapa, levando em consideração tudo o que haviam lido e o que, em suas opiniões, era mais significativo, orientadas a considerarem questões amplas como: novas formatações sociais, mudanças de valores e pesquisas científicas que podem implicar no comportamento humano.

 As diretrizes devem ser escolhidas em conjunto, de acordo com o conceito conhecido como macrotendências. Cada profissional executa o mapa em um ambiente diferente, sem haver a troca de informações entre ambas.

 O terceiro passo é a comparação dos mapas. Visto que todos estudam o mesmo material pré-analisado pelo grupo anterior, o que se pôde verificar é a grande semelhança entre as imagens. Os temas centrais e sub-temas apresentam poucas diferenças e se desenvolvem de modo similar. Este resultado faz com que novos mapas sejam desenvolvidos, porém com outras abordagens, procurando esmiuçar as atividades subseqüentes.

 O primeiro resultado percebido após a mudança no processo de análise das informações, é a nítida redução de tempo. A etapa de análise, que era executada no prazo longo de trabalho, em geral, com o uso dos mapas tem seu tempo reduzido. O segundo resultado, são as inter-relações entre as diferentes temáticas. Assuntos antes considerados irrelevantes ganham força e significado por que estarão presentes nas linhas de interligação de duas ou mais temáticas principais, passando a serem considerados temas de fundo ou sustentação, responsáveis por determinada estrutura da rede de conhecimento do mapa.

 E por fim, a similaridade das imagens conceituais dos mapas evidencia que apesar das diferenças nas abordagens de cada pesquisador todos entendem as mesmas temáticas como relevantes ou de importância considerável. Este fato mostra para a equipe que há sim um alinhamento ideológico que não é evidenciado por meio das explanações e dos textos. Em suma, todos chegam ao mesmo fim, porém, por caminhos tão distintos que acabam por criarem conflitos e uma falsa impressão de terem objetivos opostos dificultando a comunicação e o entendimento entre o grupo.

 Após um levantamento de informações em algumas publicações, sobre o assunto "tendência", nota-se que o estudo no campo da moda ainda é fortemente baseado no conhecimento empírico e que poucas abordagens metodológicas foram feitas sobre este assunto. Assim, os profissionais que lidam com esta atividade pouco experimentam novas formas de análise, interpretação, comprovação e validação do estudo. Isto contribui para difundir uma visão superficial sobre o tema ("tendência") relacionando-o, comumente, a uma técnica de "adivinhação" sistematizada.

 Entretanto, é importante pensar que por integrarmos uma sociedade baseada no consumo precisamos buscar linhas conceituais que possam orientar o trabalho dos designers com foco no mercado futuro e que isto é, não só, um fator de diferenciação como também uma ferramenta estratégica para o posicionamento de marcas e produtos a médio e longo prazo. Divulgar a experiência com os mapas mentais é a possibilidade de permitir a reflexão sobre esta e outros meios de pesquisar e analisar informações que possam servir de base para projetos de design. É, também, uma contribuição para desmistificarmos o mundo das "tendências". Pois, pesquisar tendências é uma atividade importante que permite "repensar, em nossos estudos e pesquisas de moda, as necessidades sociais, as estratégias culturais e de mercado, a identidade do produto, a identidade da marca e dos ambientes que a marca freqüenta " (CASTILHO, K. E MARTINS, M.M. Discursos da Moda, semiótica e Design. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2005).

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