IDADE CONTEMPORÂNEA (Séc. XX): 1940 / 1949

Do Holocausto ao Sonho


A década de 40 começa no momento em que a humanidade presencia o início de uma tragédia de proporções inimagináveis. O salário mínimo é instituído em 1940, e em 45 toda a legislação social e trabalhista é reunida na Consolidação das Leis do Trabalho.

O rádio, o cinema, os discos, a imprensa diária facilitavam a comunicação e a difusão de idéias. A partir de 1942 os rumos da guerra começaram a mudar, abalando um dos alicerces do Estado Novo e favorecendo a luta interna da democratização. Em 29 de outubro de 1945, Getúlio Vargas renuncia. As Forças Armadas brasileiras aparecem como fiadoras da democracia e o general Dutra é eleito presidente, começando a se preocupar em dar um rumo à economia, tomando medidas restritivas às importações e estabelecendo o controle cambial.

Com a democratização, a grande moda é ser antifascista e esquerdista. Durante a guerra as comunicações com a Europa estiveram cortadas e no pós-guerra no entanto, a efervescência da produção intelectual dos países europeus fez desaguar no Brasil uma série de conceitos como neo-realismo, abstracionismo e existencialismo.

O grande lançador de moda, o maior difundidor de hábitos, conceitos estéticos e tendências de comportamento continua a ser o cinema, que nos anos 40 foi invadido por cores nas telas com as imagens de Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Judy Garland, Rita Hayworth, Katherine Hepburn e Lana Turner.

O duas-peças começa a ser vistos nas praias brasileiras. No momento em que as importações ficam difíceis durante e depois da guerra, começa a haver um grande esforço dos profissionais brasileiros de moda para atender às pressões de um mercado acostumado aos padrões europeus.

Durante a guerra a moda se submeteu aos rigores do período, logo que terminaram os conflitos começou a haver uma reação à militarização e à masculinização das formas femininas, o que eclodiu no New Look de Dior, propondo a volta à feminilidade e ao luxo.

É nesse período que começa realmente a existir moda no Brasil. As primeiras confecções aparecem, elas riscavam no pano os seus modelos ainda nas fábricas de tecido, depois cortavam e as peças eram mandadas para costureiras, que montavam e costuravam as roupas.

O novo ideal feminino do pós-guerra faz questão da valorização das formas femininas, a cintura bem fina, os bustos e os ombros evidenciados por decotes tomara-que-caia e as pernas de fora. Surgem os vestidos tipo sereia e Balenciaga, Balmain, Dior e Givanchy, eram alguns dos grandes costureiros da época. No Brasil a Casa Canadá passa a ocupar o lugar de maior destaque na moda se limitando ao comércio de peles, que com as dificuldades de importação, abriu um salão de modas, a Canadá de Luxo, primeira boutique do Brasil e que em 17 de julho de 1944 lançou o primeiro desfile de moda no país.

Os tecidos lançados na Europa eram copiados fielmente no Brasil. As mulheres entram com força total no mercado de trabalho, e a indústria americana lança os tecidos que dispensam o uso do ferro de passar. De 1940 a 1945 as indústrias de sedas e outras fibras naturais ficam paralisadas. As meias de seda não se encontram mais à venda e é comum ver-se mulheres pintarem um fio nas pernas imitando as costuras dessas meias.

Em 1947 Christian Dior lança o New Look com saias rodadas e fartas com muitas anáguas, cintura bem marcada, corpo justo enfatizando o busto e retirando dos ombros os enchimentos que os masculinizavam; sapatos de salto alto; chapéus floridos com véus; luvas coloridas combinando com lapelas e lenços; guarda-chuvas fazendo conjunto com sapatos e bolsas; grandes brincos e colares de duas ou quatro voltas de pérolas. Um dos bem-sucedidos truques de Dior era construir em cada vestido todo o suporte necessário para que não fosse preciso nenhum espartilho.

A década de 40 é também a de Carmem Miranda, vestida por Alceu Penna, que criou para ela a primeira fantasia genuinamente brasileira.

O final dos anos 30 foi marcado com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), conflito que envolveu inúmeras nações do mundo e que mudou os rumos da história.

A moda da segunda metade dos anos 30 começou a ganhar uma certa masculinização influenciada pelos uniformes dos soldados como um prenúncio dos anos de guerra.

De 1939 a 1945 a palavra de ordem foi recessão. Obviamente que a moda não ficou fora desse contexto. Havia inclusive regras para gastos de tecidos e também para a limitação de metragem de compra.

Isso tudo provocou uma certa monotonia na moda, que foi resolvida com detalhes específicos tipo debrum colorido, bolsos e golas também de outra cor, etc., como forma de aproveitamento de sobras de tecido. Com a falta de tecido para vestuário, estes foram substituídos pelos tecidos de decoração.

O uso de turbantes, chapéus, redes e lenços sobre a cabeça foi de extrema importância, uma vez que devido novamente à ausência masculina que foi para o campo de batalha, a mulher de novo voltou a trabalhar na indústria e, por motivos de segurança, era preciso prender os cabelos.

As meias finas de nylon (marca registrada da Du Pont para a poliamida, fibra lançada pela empresa nos Estados Unidos em 1938), ficaram totalmente escassas no período da guerra, uma vez que a produção do nylon foi toda destinada para o fabrico de pára-quedas.

Uma outra peça muito usada pelas mulheres durante a guerra foi a saia-calça. Conforto e praticidade para momentos difíceis, especialmente para o uso de bicicletas.

A guerra acabou em 1945 e a alegria de viver voltou a reinar. Na moda, a indústria estava bem estabelecida, principalmente a norte-americana devido ao fato da guerra ter acontecido em solo europeu. Surgiu então nos Estados Unidos o ready-to-wear, que era uma nova maneira de produzir roupas em escala industrial, com qualidade, com expressão de moda e numeração variada de um mesmo modelo. Franceses, sob o comando do industrial Jean-Claude Weill foram aos Estados Unidos para saberem como funcionava isso e, se apropriaram da idéia transformando o ready-to-wear, em 1946, em prêt-à-porter.

Depois da guerra, exatamente em 1946, o estilista francês Louis Réard, inventou uma roupa de banho de duas peças, que devido ao bombardeio atômico no atol de Bikini no Oceano Pacífico, deu-lhe o nome de Bikini. Escândalo para a época mas que aos poucos foi sendo assimilado.

A alta-costura como já foi dito, teve seus problemas durante a guerra, mas que foram resolvidos posteriormente resgatando seus valores e respectivos talentos.

Entre os criadores dessa época, quem se destacou foi o francês Christian Dior, que lançou em 1947 uma nova proposta de roupas femininas resgatando toda a feminilidade perdida durante os anos de guerra. Suas novas criações, inspiradas nas cinturas marcadas e saias volumosas da segunda metade do século XIX foi chamada de New Look.

Assimilado entre as mulheres, elas passaram a consumir metros e mais metros de tecidos para suas saias rodadas em corte godê guarda-chuva. Bom para a indústria têxtil que precisava se restabelecer depois da crise da guerra. Estava lançada toda a base que seria a grande referência da moda nos anos 50.


 De novo, a guerra vem como catalisador das mudanças na moda. A Segunda Guerra Mundial (1939-45) exige novos posicionamentos da mulher, e as roupas ficam mais simples e austeras. Em termos formais, o uso de duas peças se impõe, garantindo praticidade aos looks, agora intercambiáveis. As saias ganharam fendas, para que a mulher possa andar de bicicleta. A silhueta fica mais próxima ao corpo, devido ao racionamento de tecidos. As pessoas têm uma caderneta que acompanha o número de metros de consumo têxtil anual. A partir de 1940, é proibido gastar mais do que quatro metros para o mantô e um metro para a camisa (as grávidas ficam liberadas dessa determinação). Os cintos de couro não podem ter mais de quatro centímetros de largura.

 As roupas são recicladas, e popularizam-se os sintéticos, como, por exemplo, a viscose, extraída da celulose. As restrições estimulam também a criatividade da indústria nos EUA, possibilitando o surgimento de um novo gênero, o eficiente sportswear americano, capitaneado por Claire McCardell (1905-58).
 A imagem da femme fatale européia é substituída pelo ideal americano de garota - as “garotas de suéter” e as pin-ups são verdadeira necessidade das tropas.

 O cabelo da atriz Verônica Lake é copiado em toda parte, tornando-se coqueluche e marca da década, enquanto Rita Hayworth devasta o mundo como o furação Gilda (1946).

 Mas é depois da guerra que acontece uma das principais revoluções da moda: o surgimento do New Look, de Christian Dior, em fevereiro de 1947. com status equivalente ao de um pop star nos dias de hoje, Dior estabelece que a mulher quer ser feminina, glamourosa e sofisticada e está cansada das agruras da guerra. A silhueta se inspira na segunda metade do século 19. Tem cintura ressaltada, marcada, e volume na saia, que, ampla e larga, fica a 30 centímetros do chão, com o busto e os ombros valorizados, na estrutura denominada linha Corola e linha 8. Quem batiza a nova moda é a editora de moda americana Carmel Snow, da revista Harper’s Bazaar, que escreve: It’s a New Look (“É uma Nova Imagem”).

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